segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Lições da maternidade

Interpretação de Ana Lucia Torre confere graça à peça com texto ágil, mas com direção manca


“Como se tornar uma supermãe em dez lições” é uma peça que começa antes mesmo que os espectadores entrem na plateia. No hall de entrada do teatro Gazeta, surge Ana Lucia Torre, que interpreta a “Mãe”. Quem vê de longe, tem a impressão de que ela chegou atrasada e está conversando com os fãs que aguardam o início do espetáculo. E ela, calmamente, vai conversando com um por um. Minutos depois, quando a porta se abre, todos já estão acomodados, lá está ela de novo, a conversar com os presentes. “Mas será possível que essa mulher não vai entrar na coxia e se arrumar?”, pensei. Até que ela se aproximou do lugar onde eu estava sentado e aí vi que a peça já tinha começado.
A personagem dizia que seu filho iria dar uma palestra ali no teatro, que ele estava nervoso e que todos deveriam aplaudi-lo. Questionada por alguém da plateia sobre seu nome, ela limitou-se a responder: “Me chamo Mãe”. E a peça começa. No palco, surge Dani (Danton Mello), um garoto inseguro, dominado pela mãe. Ao constatar a presença dela na plateia, ele treme nas bases, se desconcerta e interrompe sua palestra sobre matemática e começa a contar sua vida, dando as dez lições para se tornar uma supermãe, como sugere o título da obra.
No tablado, surgem as figuras de Anette (Flavia Garrafa) e do Pappa (Ary França). Ela é a irmã mais velha de Dani e ele, o pai de corpo presente, inexpressivo, apático e que consegue arrancar poucos risos da plateia. Quem brilha mesmo é Ana Lucia. Do começo ao fim, ela garante os risos da peça. Sua energia é impressionante e ela consegue dar linearidade à mãe com todas as suas peripécias. Flavia também tem bons momentos, em especial quando alterna suas personagens, como a judia Golda e a pretendente “sexy” de Dani. Mello apresenta duas linhas a seu personagem: começa histriônico e aos poucos vai se encaixando no papel, mais solto e mais engraçado.
Impressiona também a quantidade de cenários – que são simples, rústicos até – e as trocas rápidas que são feitas. O texto, adaptação de Clara Carvalho para a peça de Paul Fuks, é inspirado e tem tiradas ótimas, atuais e de fácil reconhecimento para o público, mas a direção de Alexandre Reinecke deixa a desejar. Existem momentos que poderiam fazer a plateia rolar de rir, mas falta movimentação dos atores e humor depende muito disso.
“Como se tornar uma supermãe em dez lições” está em cartaz no teatro Gazeta – Avenida Paulista, 900 – até 02 de junho. Os preços variam de R$ 50 (domingo) a R$ 60 (sexta e sábado).

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

“As brasileiras”: dois pesos, duas medidas

A série “As brasileiras”, co-produção da Rede Globo com a Lereby Filmes, produtora do diretor Daniel Filho, é um derivado do programa “As Cariocas”, que a mesma emissora exibiu no ano passado. Desta vez, a proposta é levar ao vídeo mulheres que representem todos os cantos do Brasil e, para isso, conta com um elenco de grandes nomes, tendo Fernanda Montenegro como a representação máxima da brasileira – ela, a grande atriz nacional – no último episódio, a ser apresentado em junho.
O que vimos no primeiro programa, “A justiceira de Olinda” foi um texto um tanto quanto apelativo, mal amarrado, completamente ficcional (não que isso seja demérito, pelo contrário) e uma atuação claudicante de Juliana Paes, que, pelo menos para mim, tem muito mais beleza do que talento propriamente. Para garantir o riso, o roteiro apelou para piadas batidas, mas que não surtiram tanto efeito assim.
Já “A inocente de Brasília”, com Claudia Jimenez como protagonista, foi exatamente o oposto do episódio anterior. Segura de sua atuação, a atriz soube conduzir com seu humor já conhecido a história de sua personagem. Outro ponto de apoio importante neste segundo episódio foi a atuação do elenco coadjuvante. Sueli Franco estava ótima e, junto a Claudia, garantiu ótimas cenas e, desta vez de fato, provocou o riso espontâneo do telespectador. Pode-se dizer o mesmo de Flavio Bauraqui, na pele de um bandido vacilante. Em “A justiceira de Olinda”, Leona Cavalli estava, assim como Juliana, caricata, pesou a mão no sotaque. E Marcos Palmeira, apesar de ter sido o destaque do elenco, garantindo a (pouca) comicidade do episódio, poderia ter rendido mais.

Sueli Franco e Claudia Jimenez: elenco alinhado ao humor do texto



Mas o grande contraponto está mesmo na atuação das duas protagonistas. Até agora, foram dois pesos e duas medidas completamente destoantes. Claudia, confortável em um terreno que conhece bem, o do humor, deitou e rolou; sua expressão facial era um complemento ao texto inspirado de Gregório Duvivier. Já Juliana... bem, Juliana continua sendo uma bunda bonita... se o que vimos no vídeo foi um “teaser” ao que ela apresentará em “Gabriela”, acho melhor não criar muitas expectativas.
A fotografia da série é excepcional, dá um colorido extra na telinha. O ritmo é ágil e a narração de Daniel Filho é um charme, embora ele engasgue um pouco vez por outra. “As brasileiras” é um bom programa, mas que pode ser ainda melhor se conseguir manter o ritmo do segundo episódio e deixar para trás os erros do primeiro. É esperar para ver.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O drama da guerra nos palcos

Se tem uma coisa que o espetáculo “Palácio do Fim”, da canadense Judith Thompson, provoca nos espectadores é reflexão. São três monólogos aparentemente desconexos, mas que têm o drama iraquiano como um elo. Apesar de ser um espetáculo denso, forte e que exige do espectador uma atenção constante, é possível encontrar lirismo nas palavras escritas pela dramaturga.


Camila Morgado é Lynndie England, a soldado das tropas americanas que foi fotografada tripudiando de prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib depois de torturá-los junto a seus pares do pelotão. A personagem surge no palco grávida, mas nem a proximidade da maternidade a torna mais simpática para o público, em parte por conta das barbaridades que parece confessar sem um mínimo de culpa. O texto, no entanto, não é maniqueísta. Pudera: trata-se de um ser humano real e ninguém é bom ou mal o tempo inteiro. Morgado empresta um pouco de sentimento a uma mulher marcada por um passado apagado, um presente de sofrimento e um futuro incerto.


Antonio Petrin é David Kelly, cientista britânico que declarou a uma rede de televisão que não havia armas de destruição em massa no Iraque e sofreu represálias de seu governo. Kelly prepara-se para a morte e em suas últimas horas de vida rememora as desgraças pelas quais amigos passaram, além de fazer uma espécie de mea culpa por sua contribuição à guerra. Impossível não se deixar tocar pela cena em que ele dá o último suspiro.


Já Vera Holtz completa o elenco dando voz à ativista iraquiana Nehjars Al Saffarh. O relato da mãe que viu seu filho ser torturado – e um histriônico e arrepiante grito da intérprete durante a encenação – comove quem vê. A única lacuna é que justamente a personagem que mais empatia causa na plateia é a que menos ocupa o espaço cênico. Boa parte de suas cenas são feitas ao fundo do palco à direita.


A direção de José Wilker é correta, contida, sem pirotecnias e golpes de efeito. A iluminação da peça é um detalhe a mais. Os três intérpretes estão corretos em seus papéis, mas é a atuação de Vera Holtz que mais chama a atenção, não à toa ela foi indicada ao prêmio Shell de melhor atriz em 2011. O título da peça é uma referência ao local em que Saddam Hussein e suas tropas torturavam dissidentes do regime ditatorial.


“Palácio do Fim” é a prova de que teatro não é só entretenimento, mas também uma forma de chamar o público a ponderar sobre os acontecimentos do mundo. Talvez muitos saiam do teatro com a sensação de terem visto uma reportagem de telejornal sobre uma terra distante, mas ao menos tomaram conhecimento de uma pequena parte da história recente.


Assisti à peça a convite da atriz Vera Holtz.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Propaganda de site de relacionamento

Não perca essa oportunidade:




Acesse agora mesmo, faça seu cadastro e ganhe um pé na bunda exclusivo! É simples, fácil e barato.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Vida. Ou um fragmento dela

- Faz de conta que está tudo bem.
- Não dá. Tô ansioso, já não durmo direito, não tenho mais unhas.
- Então, pega um livro, enfia a cabeça, distrai do mundo na leitura. Cria, escreve, rabisca, sei lá, faz alguma coisa para não enlouquecer. Só não escreva poesia, porque nesse quesito, meu bem, você é um desastre.
- Poxa, nem mais aquele tapinha no ombro você me dá mais.
- De que diabos você tá falando?
- Daquele sinal de encorajamento que você me dava, lembra?
A expressão perdida denunciou a resposta.
- Ah, claro que não, isso já seria pedir demais, continuou.
- Eu não tô entendendo aonde você quer chegar com tudo isso.
- Nada, esquece. Continua fazendo isso aí que você tá fazendo que deve ser mais interessante do que esse papinho furado aqui.
Virou as costas e saiu.
- Ei, volta aqui, tentou chamar, na vã esperança de o impedir.
Não olhou para trás. Depois o outro deu falta daquilo que ignorou.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Lirismo dramatúrgico

Espetáculo reúne interpretações pontuadas, texto de primeira e história emocionante



O que seria um pesadelo para uma mãe hiponga, que flerta com o comunismo e tem como ídolo Che Guevara, a ponto de batizar sua filha de Boina? Ora, nada pior do que ver sua cria tornar-se uma grande executiva, que prioriza a carreira e o dinheiro em detrimento das relações familiares e, ainda por cima, casar-se com um norte-americano chamado John, a quem ela insiste em chamar de João. Quando Boina (Daniella Galli/Tania Bondezan) sofre um desfalque do marido, não hesita em abandonar a filha para ir atrás da grana. Mas essa mãe – Lena (Tania Bondezan) – encara suas escolhas com ironia, sarcasmo e bom humor. Tai o mote inicial de “Ciranda”, de Célia Forte.
Como toda mãe, Lena vive repreendendo a filha dizendo que “sabia” que o caminho trilhado por ela não daria certo (o famoso “eu avisei”). Lena parece ter parado no tempo. Sua casa é um misto setentista com quadros de ícones dos anos 1960. Já Boina, não. É altiva, do modo de vestir-se ao modo de falar. Na primeira parte, Daniella Galli imprime toda a antipatia necessária à caracterização da personagem.
“Ciranda”, segundo texto de Celia, foca nas relações de mãe e filha, em especial no tocante ao conflito de gerações. As atrizes Tania Bondezan e Daniella Galli revezam-se nos papéis de Lena, Boina e Sara, filha da segunda.
Primor é o substantivo adequado para falar do espetáculo. O cenário é uma delícia e tem um quê almodovariano (talvez a trilha sonora também contribua um pouco para essa referência), prima pelo colorido e pela estética kitsch. A direção de atores, mérito de José Possi Neto, é outro agregador: as atrizes estão pontuadas, bem marcadas. Mas o destaque mesmo vai para o texto de Célia: diálogos cortantes, inspirados e emocionantes. Dramaturgia lírica que há tempos eu não via nos palcos.

Tania Bondezan cresce e brilha nos momentos de monólogo. Sua presença no palco é marcante e sua atuação emociona. Emoção não falta principalmente na cena final, em que Boina e Sara lêem as cartas deixadas por Lena. Ali, o texto ganha vida própria. Saí do teatro com lágrimas nos olhos. “Ciranda” é uma peça linda, linda e linda. Assim mesmo, repetidas vezes.